Em meio à polarização cada vez mais acentuada no país, a política brasileira parece mergulhar em uma disputa que vai além de ideias e propostas. Nos últimos dias, apoiadores do Luiz Inácio Lula da Silva transformaram as sandálias da Havaianas em símbolo de “resistência” e identidade popular. Pouco depois, simpatizantes do ex-presidente Jair Bolsonaro passaram a utilizar “latas de conserva” como forma de manifestação ideológica nas redes sociais.
O fenômeno evidencia uma tendência crescente: a substituição do debate político por símbolos, slogans e gestos performáticos. Em vez de discussões aprofundadas sobre economia, saúde, educação ou segurança pública, o que ganha destaque são objetos do cotidiano convertidos em bandeiras partidárias.
Especialistas em ciência política apontam que a criação de símbolos é comum em movimentos sociais e campanhas eleitorais. No entanto, o problema surge quando esses elementos passam a ocupar o centro da discussão, esvaziando o espaço para argumentos e propostas concretas. A política, nesse contexto, aproxima-se da lógica de torcida organizada, em que o pertencimento importa mais do que a reflexão crítica.
Para analistas, o risco desse cenário é a crescente alienação do eleitorado. O problema não é a esquerda nem a direita, mas sim o eleitor que “adotou” um político para chamar de seu, transformando lideranças públicas em figuras de devoção inquestionável. Quando a crítica desaparece e a defesa automática prevalece, o debate democrático perde qualidade.
Nas redes sociais, o embate simbólico ganha força e se espalha rapidamente. Publicações, memes e vídeos reforçam narrativas e estimulam a polarização, muitas vezes reduzindo temas complexos a disputas superficiais. O resultado é um ambiente em que a emoção prevalece sobre a razão.
Enquanto sandálias e latas ocupam o centro das atenções, questões estruturais seguem exigindo respostas concretas. O desafio, para além das preferências partidárias, é resgatar a política como espaço de argumentação, responsabilidade e construção coletiva — antes que o bom senso se torne artigo raro no debate público brasileiro.
Do Portal Ailton Pimentel/Foto: Reprodução/Internet

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